Sociais em Rede: uma experiência de cultura digital na EREM Prof. Cândido Duarte
O Sociais em Rede (SER) é um programa de investigação-ação-aprendizagens que reúne docentes, estudantes de graduação e pós-graduação das Ciências Sociais da UFRPE em torno da produção e circulação de conhecimentos para além dos espaços acadêmicos.
A proposta surgiu no contexto da greve docente de 2024, inicialmente a partir do interesse em produzir conteúdos de caráter social por meio de mídias como o podcast e o audiovisual. A primeira ação foi a criação do Cineclube Ilumiara, durante a X Semana de Ciências Sociais, em novembro de 2024. A partir dessa experiência, foram articuladas outras frentes, como revista eletrônica, oficinas, podcast e cinema, reunidas no programa Sociais em Rede: difundindo e renovando o conhecimento social para além da Ciência.
A primeira experiência prática do projeto em uma escola aconteceu na EREM Prof. Cândido Duarte, em Apipucos, Recife, entre março e junho de 2026. A iniciativa foi desenvolvida em parceria com estudantes e docentes da escola, integrantes das Ciências Sociais da UFRPE, bolsistas do PIBID/UFPE e equipes do multiHlab, dentro de uma proposta de letramento digital orientada pelo diálogo, pela participação e pela produção coletiva.
A experiência também se articulou ao tema proposto pela Rede Estadual de Educação de Pernambuco para 2026, “Educação para a Cidadania Digital e Midiática: formando cidadãs e cidadãos críticos e responsáveis”. A partir dele, o projeto buscou discutir como os jovens consomem informações, quais temas fazem parte de seu cotidiano, de que maneira as redes digitais interferem na percepção da realidade e como as tecnologias podem ser utilizadas de forma crítica e criativa.

Fonte: Acervo multiHlab
Em fevereiro de 2026, a equipe definiu sua atuação com as três turmas de primeiro ano do Ensino Médio da EREM Prof. Cândido Duarte. O planejamento inicial previa cinco encontros com cada turma, mas, devido às dinâmicas do calendário escolar, foram realizados sete encontros com cada grupo, distribuídos ao longo dos meses de março a junho.
As atividades aconteceram principalmente durante as aulas de Língua Portuguesa, conduzidas pela professora Mônia Cavalcanti, utilizando diferentes espaços da escola, como salas de aula, biblioteca e auditório. A equipe também contou com estudantes do PIBID, pesquisadores e estudantes das Ciências Sociais e integrantes do multiHlab.
A metodologia foi organizada em três momentos principais: apresentação do projeto e da cultura digital; discussão dos temas escolhidos e seus desdobramentos; e produção de materiais digitais para a revista eletrônica SER. O processo foi acompanhado por um diário de campo coletivo e por registros fotográficos, permitindo documentar não apenas as atividades, mas também as reflexões produzidas a partir delas.
Mais do que levar conteúdos prontos para a escola, a proposta era construir os temas junto com os estudantes. Por isso, cada turma percorreu um caminho próprio.
1º ano A: da violência aos debates sobre gênero

Fonte: Acervo multiHlab
A experiência começou com a turma do 1º ano A, no dia 04 de março. O primeiro encontro apresentou o projeto e a proposta de produção de conteúdos para uma revista eletrônica. Como os estudantes ainda não conheciam esse formato, a equipe utilizou a Revista Coletiva, publicação eletrônica da Fundaj, para mostrar como diferentes linguagens e conteúdos podem ser organizados em um ambiente digital.
A partir de uma conversa sobre os temas estudados pelas Ciências Sociais, surgiram questões como desigualdade racial, violência, intolerância religiosa, consumo de mídia, homofobia, machismo, educação sexual, assédio, trabalho infantil, gordofobia e violência de gênero. Entre as possibilidades levantadas, os estudantes escolheram violência como tema principal.
No encontro seguinte, realizado em 25 de março, a discussão foi ampliada com a utilização do Atlas da Violência 2025, produzido pelo Ipea, e do site do Instituto Maria da Penha. Utilizando tablets disponibilizados pelo multiHlab, os estudantes navegaram pelas plataformas, visualizaram dados sobre violência e conheceram as diferentes formas de violência contra a mulher previstas pela Lei Maria da Penha. A atividade aproximou os estudantes de bancos de dados e fontes de informação confiáveis, articulando pesquisa social e letramento digital.

Fonte: Acervo Projeto SER. | Mapa mental produzido na hora pelo grupo de Violência moral utilizando o ChatGPT e folha de caderno.
A partir dessas discussões, os grupos escolheram trabalhar com diferentes formas de violência, especialmente aquelas relacionadas à violência contra a mulher. Nos encontros seguintes, pesquisaram seus temas, apresentaram informações encontradas na internet e discutiram como a violência aparece no cotidiano.
O debate avançou quando a equipe apresentou materiais audiovisuais e culturais sobre violência doméstica, machismo e relações de gênero. A música Maria da Vila Matilde, de Elza Soares, e vídeos produzidos sobre violência doméstica ajudaram a provocar novas perguntas. Em seguida, a professora Mônia conduziu uma discussão sobre patriarcado e machismo, utilizando leitura de imagens, uma cartilha sobre diversidade e a animação Vida Maria, de Márcio Ramos. As discussões levaram os estudantes a reconhecer situações relacionadas à divisão do trabalho doméstico e aos diferentes modos como meninos e meninas são educados.
O encontro também contou com o jogo Vidas Maria, desenvolvido para discutir a aplicação da Lei Maria da Penha em situações de relacionamento entre adolescentes. Por meio das cartas e do tabuleiro, os estudantes identificaram formas de violência, conheceram personagens femininas da história brasileira e discutiram diferentes possibilidades de ação diante das situações apresentadas.

Fonte: Acervo multiHlab
Depois da etapa de discussão, chegou o momento de transformar as reflexões em produção digital. Em junho, após um intervalo de seis semanas entre os encontros, os estudantes produziram colagens digitais no Canva, utilizando os notebooks do laboratório móvel da escola. A equipe do multiHlab acompanhou o processo, auxiliando na busca de imagens, edição, remoção de fundos e organização das composições.
As primeiras versões revelaram que saber utilizar uma ferramenta digital não significa necessariamente dominar a linguagem produzida por ela. Os estudantes tinham diferentes níveis de familiaridade com ferramentas como Canva e Pinterest, mas ainda precisavam ampliar suas referências visuais e compreender melhor a lógica da colagem digital. Após uma etapa de apresentação, crítica e orientação, os grupos revisaram suas produções e conseguiram desenvolver trabalhos mais elaborados.
Versão inicial e versão final de colagem sobre "Violência Sexual"
1º ano B: dos conteúdos das redes à produção digital

Fonte: Acervo multiHlab
Com a turma do 1º ano B, o projeto começou no dia 09 de março com uma dinâmica sobre tecnologia e comunicação. Os estudantes foram convidados a pensar sobre objetos presentes em seu cotidiano e sobre as diferentes formas de tecnologia utilizadas pelas sociedades. A atividade levou à discussão sobre comunicação, redes digitais e fake news.
A turma analisou jornais impressos e, posteriormente, escolheu os assuntos que gostaria de desenvolver para a revista eletrônica. Entre os temas apareceram fofocas e influencers, investimentos e guerras. A partir deles, os estudantes começaram a refletir sobre onde encontram essas informações, quais fontes utilizam e de que maneira esses conteúdos influenciam suas percepções.
No segundo encontro, os grupos aprofundaram suas pesquisas. As discussões mostraram como os temas escolhidos estavam ligados diretamente à experiência digital dos estudantes: discursos de influenciadores sobre investimentos, informações sobre celebridades e debates sobre conflitos e guerras apareciam principalmente nas redes sociais.

Fonte: Acervo multiHlab
No dia 17 de abril, a atividade tomou como ponto de partida o jogo do “telefone sem fio”. Uma frase sobre a professora Mônia foi transmitida entre os estudantes e chegou ao final completamente modificada. A experiência serviu para discutir como informações podem se transformar ao circular e foi relacionada às fofocas e às fake news. Casos como os de Klara Castanho e Jéssica Canedo foram utilizados para discutir as consequências da circulação de informações falsas.

Fonte: Acervo multiHlab
A discussão se expandiu para temas como fama, posição social, consumo, trabalho e tecnologia. Os estudantes refletiram sobre o papel dos influenciadores, a relação entre visibilidade e dinheiro e os impactos da automação no mundo do trabalho. No final de uma das atividades, quando convidados a sintetizar o debate em uma palavra, um estudante respondeu: “Capitalismo”.
No encontro seguinte, outras linguagens foram mobilizadas. A partir de um vídeo da influenciadora Débora Luz, os estudantes discutiram identidade, cabelo crespo, consumo e mercado. Também voltaram a pensar sobre conflitos nas redes sociais e participaram de jogos relacionados aos temas trabalhados, como batalha naval e jogo de bolsa de valores. A atividade terminou com a apresentação da nova identidade visual da revista eletrônica, aproximando a turma da etapa de produção.
Nos últimos encontros, os estudantes passaram à criação dos próprios conteúdos. Primeiro, conheceram a linguagem do stop motion e foram convidados a elaborar roteiros. Em seguida, experimentaram a colagem analógica com recortes de revistas e, posteriormente, passaram à colagem digital, utilizando tablets e Canva.

Fonte: Acervo multiHlab
O processo evidenciou novamente que a familiaridade com ferramentas digitais não é suficiente para garantir uma produção autoral. Alguns estudantes demonstravam grande habilidade no uso dos equipamentos, enquanto outros precisavam de mais acompanhamento. Ao longo da atividade, entretanto, os grupos foram capazes de experimentar novas formas de composição e produzir seus próprios materiais para a revista.

Fonte: Acervo multiHlab
1º ano C: preconceitos, violência e cotidiano

Fonte: Acervo multiHlab
A turma do 1º ano C iniciou sua participação no projeto em 27 de março. O primeiro encontro utilizou uma dinâmica corporal para aproximar estudantes e pesquisadores e, ao mesmo tempo, introduzir a discussão sobre cultura digital. Entre os temas sugeridos pela turma estavam futebol, música, jogos eletrônicos, redes sociais, leitura digital e violência.
A discussão sobre violência ganhou destaque e foi desdobrada em cinco temas: preconceito religioso, preconceito sexual, preconceito racial, preconceito de gênero e preconceito estético.

Fonte: Acervo multiHlab
No segundo encontro, em 31 de março, os estudantes foram divididos em grupos. As discussões abordaram diferentes formas de preconceito e situações vivenciadas no cotidiano, incluindo experiências relacionadas à xenofobia em jogos digitais e estereótipos sobre a população nordestina.
Para aprofundar a investigação, cada grupo recebeu perguntas como: O que é? Onde encontramos? Como encontramos? Por que nos interessa? Quem nos dá informações? Como reagimos? O debate gerou forte participação, especialmente entre os estudantes envolvidos com o tema do preconceito racial. A conversa também trouxe situações vivenciadas dentro da própria sala de aula, incluindo discussões sobre machismo e comportamentos reproduzidos entre os jovens.

Fonte: Acervo multiHlab
Nos encontros seguintes, realizados em 22 e 29 de maio, a turma passou da discussão à produção dos próprios conteúdos. Com a orientação de Isadora, os estudantes conheceram a linguagem do stop motion, assistiram a exemplos e aprenderam a estruturar suas narrativas em três momentos — início, meio e fim. A partir de recortes de revistas e desenhos feitos à mão, os grupos construíram personagens e cenários e iniciaram as gravações com celulares apoiados em suportes flexíveis. Ao longo das atividades, os estudantes produziram suas animações em stop motion, acompanhadas ou não de narração, transformando os temas discutidos em sala em produções audiovisuais para a revista eletrônica.
Animações StopMotions realizadas pelos estudantes
Entre consumo e produção
Ao longo dos meses de trabalho na EREM Prof. Cândido Duarte, diferentes situações mostraram que os estudantes já possuem uma relação intensa com as tecnologias digitais, especialmente por meio das redes sociais. Ao mesmo tempo, o projeto identificou a necessidade de ampliar as experiências de letramento digital, para que o acesso às tecnologias estivesse acompanhado de reflexão sobre fontes, autoria, circulação e interpretação das informações.
Em diferentes momentos, os estudantes utilizaram TikTok, Pinterest, Instagram, ChatGPT, Gemini, Canva e outras ferramentas para pesquisar e produzir conteúdos. A presença dessas tecnologias não foi tratada apenas como recurso técnico, mas como parte do próprio objeto de reflexão. O objetivo foi compreender como os jovens se relacionam com os ambientes digitais e criar oportunidades para que pudessem passar de consumidores de conteúdo a produtores de materiais destinados à circulação pública.
Esse processo também revelou desafios. A necessidade de compartilhar equipamentos e espaços e a própria dinâmica do ensino em tempo integral interferiram na continuidade das atividades. O laboratório móvel, por exemplo, possibilitou novas experiências, mas exigiu uma organização logística que só foi viável com a presença de uma equipe ampliada.
Outro desafio observado foi a chamada “cultura da eficiência”: em alguns grupos, um ou dois estudantes concentravam a operação dos equipamentos e a realização da tarefa, enquanto os demais participavam menos do processo. O uso do ChatGPT para produzir textos e ideias também mostrou a importância de discutir não apenas o acesso às ferramentas, mas seus usos críticos e autorais.
Ao mesmo tempo, os momentos de diálogo mostraram possibilidades de construção coletiva. Quando os estudantes eram convidados a relacionar os temas às próprias experiências, contar histórias, questionar situações do cotidiano e experimentar diferentes linguagens, surgiam outras formas de participação e interesse.

Fonte: Acervo multiHlab
A passagem do Sociais em Rede pela EREM Prof. Cândido Duarte produziu, assim, mais do que materiais para uma revista eletrônica. Produziu uma experiência de encontro entre escola, universidade e laboratório, aproximando as Ciências Sociais das formas contemporâneas de comunicação e dos repertórios digitais dos jovens.
Os caminhos percorridos por cada turma foram diferentes: violência, preconceitos, gênero, fofoca, influencers, investimentos, guerras, consumo, trabalho e tecnologia. Em comum, esteve o esforço de transformar questões presentes no cotidiano em oportunidades de investigação, debate e criação.
O resultado desse primeiro ciclo está reunido na seção Cultura Digital da revista eletrônica Sociais em Rede, onde os registros do percurso e as produções dos estudantes permanecem disponíveis para novas leituras, discussões e aprendizagens.







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